Visualize este site com ou sem a barra lateral.

My Favorite Playlist
Your country is: United States
Country Code is: US

O meio mea culpa da Globo faz pensar mais pelo que não diz do que pelo que resolveu dizer

1 de September de 2013, às 23:19:43 Postado há 2 anos e 10 meses atrás



(Fonte da imagem: DoLaDoDeLá)



O noticiário do fim de semana, de resto banal e insosso, tornou-se instantaneamente histórico ao ser divulgado o editorial do jornal O Globo, das organizações Globo, admitindo que seu apoio ao golpe de 1964 teria sido de fato um erro. Mas além da importância do que diz, o tal anúncio é de fazer pensar também pelo que não diz explicitamente.


A frase desse editorial que foi seguramente a mais citada internet a fora (e repetida de algum modo por três vezes no próprio editorial), afirma que “à luz da História, contudo, não há por que não reconhecer, hoje, explicitamente, que o apoio foi um erro”. O interessante, parece-me, é conjecturar o significado específico da curiosa expressão “à luz da história”. Afinal, se a história pós-golpe fosse outra não haveria então do que se arrepender?


A contextualização histórica feita ali coloca praticamente toda a responsabilidade pelo golpe na suposta radicalização crescente da época, que teria sido basicamente culpa de João Goulart. Uma visão obviamente reducionista e bastante interessada em assumir um erro do jornal (apoio ao golpe) mas criando a ideia e que a culpa por essa opção não foi exatamente do jornal, mas sim da conjuntura criada. O que equivale a assumir que foi induzido a pecar, não que pecou. Ainda, tal contextualização do editorial de sábado aponta que a interpretação do Globo à época era similar à de muitos apoiadores do golpe, qual seja, a de que o golpe seria “a única alternativa para manter no Brasil uma democracia. Os militares prometiam uma intervenção passageira, cirúrgica. Na justificativa das Forças Armadas para a sua intervenção, ultrapassado o perigo de um golpe à esquerda, o poder voltaria aos civis. Tanto que, como prometido, foram mantidas, num primeiro momento, as eleições presidenciais de 1966”.


Essa mui generosa intenção de nos livrar da ditadura comunista de fato habitava firmemente os delírios da direita brasileira, organizações Globo incluídas (às vezes ainda habita, vide comentários delirantes sobre o comunismo que estaria embutido na importação de médicos cubanos nos dias de hoje). E é tratada no mea culpa do Globo, todo o tempo, como algo justificável pelo contexto da época. O que, obviamente, não é: a correta noção de que os contextos são essenciais para entender um processo histórico não deve jamais ser confundida com a ideia cômoda de que contextos servem sempre para justificar processos históricos. Muito menos para perdoá-los pronta e candidamente, transmutando em mero erro aquilo que na verdade é uma atrocidade contra a vida pública, e que levou a toda sorte de barbáries contra vidas privadas.


No editorial de sábado, porém, o Globo vai mais longe, chegando a afirmar ao final que “os homens e as instituições que viveram 1964 são, há muito, História, e devem ser entendidos nessa perspectiva. O GLOBO não tem dúvidas de que o apoio a 1964 pareceu aos que dirigiam o jornal e viveram aquele momento a atitude certa, visando ao bem do país”. Uma demonstração de que se o mea culpa finalmente chegou, o respeito pelo leitor e pelo país, ainda não. Afinal, tentar nos convencer de que as intenções do jornal ao apoiar o golpe de 1964 eram as melhores possíveis, é daquelas coisas que nos fazem pensar por que não permaneceram em silêncio. Sem falar, é claro, nos constrangedores parágrafos em que tentam nos mostrar como, apesar de apoiar a ditadura, Roberto Marinho foi um quase herói da resistência da imprensa. Poupai-nos.


Por fim, o intrigante significado do misterioso “à luz da história” volta a chamar a atenção na parte em que o Globo diz que “o desenrolar da ‘revolução’ é conhecido. Não houve as eleições. Os militares ficaram no poder 21 anos, até saírem em 1985, com a posse de José Sarney, vice do presidente Tancredo Neves, eleito ainda pelo voto indireto, falecido antes de receber a faixa”. De fato, como é sabido, os apoiadores do golpe de 1964 foram traídos e sofreram eles mesmos aquilo que se poderia chamar (e na verdade há quem assim considere) um segundo golpe. Foi aí que os militares não devolveram o poder. Cassaram os partidos. Perseguiram até mesmo Carlos Lacerda – o golpista número um da república de 1945-64. E foi nesse momento, acima de tudo, que o Globo identificou o seu “erro” de avaliação sobre o golpe. Quando o golpe se tornou de fato uma ditadura. Quando a imprensa apoiadora do golpe foi em certa medida também traída por ele. Aí fica fácil se arrepender: o Globo (não a Globo quanto grupo, note-se) parece lamentar mais a ditadura do que o golpe em si mesmo. Mais o segundo golpe (a traição) do que o primeiro (a tirada do poder daqueles de que não gostava).


Verdade que, por um lado, o editorial de sábado termina com uma frase perfeita, motivadora de sinceras esperanças: “a democracia é um valor absoluto. E, quando em risco, ela só pode ser salva por si mesma”. Sábio aprendizado, sem ironia alguma. Mas por outro lado, o texto deixa a impressão que o erro identificado não foi o apoio ao golpe em si mesmo – o apoio parece ter sido errado apenas por causa dos resultados que, à luz da história, sabemos que aquele episódio ensejou. Dá a impressão de que se os militares tivessem derrubado Jango mas mantido as eleições de 1966 para os anti-trabalhistas que a Globo apoiava ganharem, pelo jeito as organizações Globo não veriam nada demais. E talvez não estariam pedindo desculpas hoje.


Desculpas por um “erro” que é muito mais que isso: é verdadeiro crime. A imprensa é a primeira a debochar de quando autoridades políticas classificam crimes e obscenidades públicas como “equívoco”, “escorregão”, “erro de percurso”. O mesmo se aplica aqui. O Globo, e aliás a Globo, não erraram. A Globo e o Globo compactuaram e contribuiram com um golpe de estado. Com um golpe que queria mudar (e mudou) rumos da história pública do país. Rumos que cometiam o pecado de apontar em direções simplesmente mal vistas pela empresa de comunicação. Um golpe que criou uma ditadura violenta e opressora. O Globo chamar de erro seu apoio é tão distorcedor da verdade quanto foi ter chamado, até esse sábado, o golpe de revolução.



Tags: , , , ,

12345678910 (média: 10.00 / votos: 2)
Loading...
Enviar esse post: