| 23 de Julho de 2010, às 19:21:21 | Postado há 1 mês e 1 semana atrás |
Dias atrás, a candidata Dilma Rousseff desistiu de participar daquele que seria o primeiro debate online entre candidatos a presidente na história eleitoral do país, promovido por Yahoo, IG, Terra e MSN. Alegou problemas de agenda, tal como José Serra que ontem fez o mesmo e também afirmou que não irá ao debate, que então foi cancelado. Que não se venha com a explicação amiga de que Serra só desistiu do debate porque Dilma o fizera: afinal, nem sua própria campanha deu essa desculpa para ficar bem na fita. Assumiu desistência com o mesmo argumento de Dilma, “problemas de agenda”. Então, ambos abdicando de debate, surge a questão: por que raios candidatos desistem de debates? Medo, covardia, algo a esconder, como a análise política costumeira gosta de simplificar?
A primeira coisa a se dizer sobre o assunto, é que se trata de uma prática comum em vários países e sem dúvida em todos os partidos no Brasil. No nível presidencial, já vimos FHC e Lula fugirem de debates, por exemplo. Em eleições estaduais, candidatos de todos os partidos, Serra incluso, já fugiram de debates quando estavam bem nas pesquisas. Neste ano, Sérgio Cabral (PMDB), no Rio, assume a prática e anunciou oficialmente que não irá a nenhum no primeiro turno. Por isso, análises como a de Noblat são furadas: “nem duas, nem três ou mais. Só há uma razão para que candidato fuja de debates: medo de perder votos”, disse Noblat em um post de uma linha e meia, feito antes de Serra desistir também. A idéia que em geral se quer aventar é a de que esses candidatos têm algo a esconder, têm teto de vidro, não conseguem encarar adversidades. Ou no caso de Dilma (desde que cancelou uma entrevista a jornalistas do Uol porque foi convidada a um encontro por governantes de 3 países da União Européia), é a de que a candidata do PT estaria fugindo do confronto por causa de sua pouca habilidade, inexperiência ou lulodependência. Mas o que se sabe sobre o assunto desaconselha esse tipo de avaliação partidária e torcedora. Afinal, alguém chamaria Lula de inexperiente, inábil ou não carismático quando também ele fazia pouco caso debates? Ou diriam os analistas que, quando seus candidatos preferidos já desistiram de debates, também eles o fizeram por ter o que esconder? Dilma, Cabral, Lula, Serra – ninguém inventou essa prática.
Pode ser ruim para o eleitor indeciso formar opinião, pode estragar o ritual formal das campanhas, pode até (em visão mais otimista acerca dos debates que temos) prejudicar a troca e a exposição de idéias sobre os problemas do país. Ou o conhecimento que se tem dos candidatos. Mas candidatos não evitam debates por medo de perder votos no sentido de não confiarem em seu próprio taco ou de terem algo a esconder. Candidatos de todos os tipos e partidos só evitam debates em apenas uma (nem duas nem três, para seguir o Noblat) circunstância: quando sentem que estão à frente dos adversários e em uma curva francamente ascendente nas intenções de votos. A razão é óbvia: nessa circunstância serão alvos únicos de todos os participantes e terão que passar o debate todo se defendendo, não debatendo idéias como seria o caso no mundo ideal. Cenário em que, se não perdem votos, certamente não ganham. Não é por outra razão que Serra também abandonou o debate online, que poderia ser feito entre ele e Marina com a chance ainda de criticar a ausência de Dilma. Serra desistiu porque não tendo chance de arrancar votos de Dilma, para que ficar sendo surrado por Marina – que é concorrente direta de seus votos junto aos antipatizantes do PT e de Dilma?
Ou seja, candidatos desistem de debates quando sentem que estão em situação eleitoral em que não poderão ganahr votos com eles. Não por medo de perder votos – interpretação que leva, sutilmente, a todo tipo de estereótipos e folclorizações. Não “fogem”, como o Estadão chega a dizer em manchete. Com isso, não estou dizendo que gosto, apóio ou endosso essa prática. Que defendo a atitude de Dilma, a opção de Cabral. Estou propondo apenas que entendamos qual a tática que está na cabeça de candidatos, do PT ou do PSDB, quando fazem essa opção. Dizer que têm medo de debater, são incapazes, incompetentes ou têm o que esconder, é apenas a crítica fácil de quem desafia uma criança a chamando de medrosa. Apontar que estão se lixando para a qualidade da discussão eleitoral, aí sim seria verdade. Porque estão. Políticos são máquinas de calcular votos: portanto só se importam com a qualidade da campanha se isso importa para seus votos. E há muita dúvida que alguém perca votos por não participar de debates na internet ou mesmo na TV. Mas menos ainda (e isso é o central), de que alguém ganhe votos consideráveis nesses eventos. Por isso passam a importar apenas em caso de empate muito próximo, em situação em que cada voto pode fazer a diferença. O que certamente, nunca é o caso dos primeiros turnos eleitorais, por definição.
Nesse sentido, o que espanta especificamente na postura de Dilma de não ir ao que teria sido o primeiro debate online (ainda que já tenha confirmado o do Uol e os de 5 emissoras de TV, vamos ver se irá) é: o PT parece estar realmente de salto alto, tratando a candidatura como se estivesse galopante, muito à frente de José Serra nas intenções de voto. Cabral, no Rio, tem quase 60% das intenções de votos, mas Dilma está pouco à frente de Serra no país. Situações bem diferentes. Quero dizer: não existe isso de tentativa de poupar Dilma - políticos em suas primeiras candidaturas vão a debates. E nem Dilma foge de debates mais do que Serra, Lula ou outros tantos experientes. Se Dilma não vai, tem mais a ver com apostar realmente que seu momento é francamente favorável e que por isso não faria sentido ir a debates ficar se defendendo. Resta saber se essa aposta da campanha do PT irá se confirmar, pois é cedo demais para isso e podem perfeitamente cair do cavalo.
Todos são realmente iguais no aspecto “cálculo dos benefícios de debater”: tanto Dilma quanto Serra, enquanto Marina só não os repete porque tem 9% dos votos e a ela interessa debater. Quanto a isso, é justo que nos indignemos com essa opção a menos de ver nossos candidatos falarem sobre o que pensam. Desanima o eleitor, incomoda. É justo. Só quero evitar que caiamos nos discursos furados de analistas e comentaristas, que tentam pintar a questão como se não ir a debates fosse novidade ou fosse exceção, não regra para quem supostamente está em momento favorável. E como se fosse decisão de caráter partidário ou moral, não uma análise fria de tática eleitoral, como tantas outras boas ou ruins, que todos fazem. Indignação é justa. Mas com o cálculo que fazem, não restrita a quem fez o cálculo desta vez. Dilma e Serra inclusos. Porque indignação apenas com o “quem” é pré determinada pela preferência de quem diz.
Tags: Debate, debate online, Debates eleitorais, desiste, Dilma, Eleições, Eleições 2010, foge, IG, MSN, Noblat, Quem guarda os guardas?, Serra, Terra, Yahoo



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Faltar a debates é tática clássica. Não é de hoje, não é da Dilma, não é do Serra. Mas é feio, muito feio, lamentável mesmo, e perde a democracia.
Nota zero à Dilma, que fugiu de vários, e ao Serra, que desistiu do debate online depois da desistência da Dilma.
Nota dez à Marina, que não fugiu de nenhum, e ao Plínio, que luta para poder participar (!!!) dos debates.
PS: Matei meu twitter mesmo, cara. Qualquer dia, numa mesa de boteco, te conto por quê. Mas vou continuar passando por aqui, hein!
Hey grande Fábio, sempre bom ter vc aqui de volta!
Olha só, feio é mesmo e como disse, pode ser ruim para o eleitor indeciso especialmente. Daí, lamentável. Maaas, o que não se pode é pintar como falha de caráter, de moral ou de bons costumes, ou como pouco caso com o eleitor, medo ou coisa do gênero, algo que é mera tática de campanha desde o começo dos tempos. Digo isso porque, por exemplo, não faz sentido elogiar Marina por ir a debates ou Plínio por querer ir se, para eles, é óbvio que debates interessam por estarem com bem menos votos!
Aí é fácil: é só está perdendo que todos serão defensores de debates desde criancinha.
Por enquanto eles só estão fazendo o que é interessante eleitoralmente para suas campanhas, tal como Dilma ou Serra. Incidentalmente, neste momento o que lhes interessa é também bacana para nós eleitores. Mas nada garante 8e duvido muito) que, se confrontados com uma situação de favoritismo nos votos, eles se manteriam com essa postura.
Well, agora me deixou curioso e até preocupado! Pretendo conseguir essa informação sobre seu Twitter para breve, então!
E bem, só posso ficar todo feliz se você mesmo assim vai continuar por aqui! De verdade, é sempre um prazer e uma honra!
Grande abraço!