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Entendendo algumas diferenças metodológicas que fazem Vox Populi e Datafolha tão diferentes

26 de Julho de 2010, às 19:26:22 Postado há 1 mês e 1 semana atrás

        

O torcedor, o eleitor e o brasileiro (charge do Amarildo em http://amarildocharge.wordpress.com)


Nesse fim de semana foram divulgadas duas novas pesquisas de opinião eleitoral com resultados bastante diferentes entre si: sexta a do Vox Populi com Dilma 8 pontos à frente e sábado a do Datafolha com ela e Serra empatados. Ainda que os resultados de todos os institutos apontem em geral a mesma tendência de crescimento de Dilma e estagnação de Serra, como demonstrado pelo excelente Günter Zibell no blog do Nassif, essa diferença entre os últimos Datafolha e Vox Populi vem sendo alvo de muitos debates pela internet. Como se diz que seus resultados, a princípio, devem-se a suas diferentes metodologias, que tal ajudar vocês a entender os principais pontos de diferença metodológica entre esses institutos?


Para começar, podemos usar o post de José Roberto de Toledo, do Estadão, que traz um quadro com algumas características que diferenciam as metodologias de Datafolha e Vox Populi. Nele, destacam-se basicamente: 1) método de coleta (entrevista em domicílio, pelo Vox, versus entrevista em pontos de fluxo de pessoas, pelo Datafolha), 2) a pergunta-esquenta feita pelo Vox Populi: antes de perguntar em quem o entrevistado votaria, indagam o grau de conhecimento do entrevistado sobre os candidatos; 3) mais importante de tudo, o Vox Populi informa aos entrevistados a que partido pertence cada candidato, enquanto Datafolha não. E há também outros dois pontos relevantes não citados por Toledo: 4) o Datafolha não escolhe entrevistados guardando proporção com o grau de escolaridade da população brasileira e 5) Nassif levantou uma dúvida técnica diretamente aos diretores desses institutos que ainda espera a resposta do Datafolha: metodologicamente, parece que Datafolha descartaria entrevistados que não possuem telefone (celular ou fixo). Agora, para ser objetivo ao máximo, vamos direto a uma breve explicação de cada um dos pontos, ok?



1) o único instituto de pesquisa eleitoral do país que pega todos seus entrevistados aleatoriamente nas ruas de grande fluxo de pessoas é o Datafolha. É claro que fazendo isso não conseguiriam replicar nas pessoas entrevistadas as características da sociedade, como o peso de mulheres e homens no país, dos negros e brancos, ricos e pobres, mais ou menos educados, etc. Mas o Datafolha corrige isso: anota a maioria desses dados para cada entrevistado e depois dá a cada subgrupo o peso que tem no país realmente.Ou seja, pondera. O que é algo normalíssimo. Por exemplo, se das pessoas que pararem na rua só 30% for mulher, darão às suas respostas peso maior que a dos homens de modo a que representem 50% do resultado total. O grande problema dessa metodologia é que tende a deixar de fora o mundo rural. Desse modo, as entrevistas do Datafolha em geral representam muito melhor o voto urbano do que rural e, aí sim, pode explicar e muito as diferenças entre Dilma e Serra, já que ao que tudo indica o governo Lula e o PT estão melhor avaliados no rural que no urbano.


2) esse ponto é polêmico à toa. Do ponto de vista técnico, perguntas-esquenta não são necessariamente um problema ou distorcem os resultados. É um procedimento comum, na verdade. E a rigor, não entendo onde é que perguntar o grau de conhecimento dos candidatos pode beneficiar a um ou a outro se o entrevistador não está aumentando o nível de conhecimento sobre nenhum deles. E se beneficiasse alguém, o faria no sentido do mais conhecido, pois talvez constrangesse o entrevistado a não responder que votaria em alguém que disse desconhecer. Nesse sentido, o Vox Populi ajudaria mais Serra do que Dilma, o contrário do que diz quem suspeita do resultado favorável à petista trazido por esse instituto na sexta.


3) aqui sim temos discussão quente e interessante. Ao informar a que partido pertencem os candidatos, o Vox Populi está dando ao entrevistado uma informação que ele não tinha. E isso antes de lhe perguntar em quem vai votar. No mundo das pesquisas, tampouco isso é necessariamente um problema. É procedimento normal, mas que depende do caso: pode ou não ser desejável. E aí é que entra você, leitor, para avaliar o que acha disso. Ao informar a que partido pertence cada candidato, o Vox Populi quer simular a situação de outubro, quando o eleitor terá de fato essas informações na hora de votar. Ao não fazer isso, o Datafolha quer estimar como o eleitor votaria se hoje, de repente, fosse levado às urnas sem passar pelas informações básicas que terá na hora de votar. Ambos procedimentos têm prós e contras e, certamente, ambos ajudam a explicar parte das diferenças entre os resultados dos institutos. Ao contrário do que os analistas senso-comum gostam de dizer, o povo brasileiro tem identidades partidárias básicas, como por exemplo aqueles que em geral votam no PT e os que em geral não votam por definição. E claro, saber a informação de que Dilma é do PT ajuda a fazer a ponte para que ela é candidata de Lula. Informar isso é informar o que se saberá na hora de votar em outubro. Mas não o que se sabe agora. Não há erro em informar ou não, mas que muda muito, muda.


4) aqui temos ponto importante no Datafolha: suas pesquisas, ao tentar corrigir a quantidade de entrevistados de cada subgrupo social do país (processo que se chama de amostragem), como expliquei no ponto 1, recorre a várias informações do IBGE mas não faz a necessária ponderação correta para os níveis de educação. Em geral suas pesquisas entrevistam porcentagem maior de pessoas mais escolarizadas do que as que de ato existem na sociedade. O que em parte também já seria de se esperar por não entrevistarem no setor rural. Caso tenha se repetido, isso ajudaria a explicar, sem dúvida, resultados mais favoráveis a Serra do que a Dilma.


5) e por fim, essa nova questão que está em vias de ser elucidada pelo blog do Nassif, assim que o diretor do Datafolha também responder as perguntas feitas pelo blogueiro: a seleção indireta de entrevistados de acordo com terem ou não telefone. O problema é o seguinte: toda pesquisa de opinião, de todo instituto, é parcialmente conferida pelos seus próprios fiscais para saber se os entrevistadores não inventaram entrevistados. Para isso, sorteia-se um número de entrevistados, entra-se me contato com eles para checar se foram de fato entrevistados, etc. O problema é que, para fazer essa checagem, Ibope, Sensus e Vox Populi pedem o endereço do entrevistado, enquanto o Datafolha pede o telefone, fixo ou celular. Bem, como todo entrevistado tem que poder ser checado para garantir que não foi um entrevistado-fantasma, a rigor é de se imaginar então que os sem-telefone ou não são entrevistados ou são excluídos dos cálculos totais. Isso é o que deveria acontecer, a rigor, já que o Datafolha só pede telefones, não aceita checagem por endereço.

Se esse procedimento, que deveria acontecer, de fato for confirmado pelo Datafolha, aí tem-se talvez a diferença mais significativa entre ele e outros institutos: o primeiro considera só quem tem telefone, os outros consideram quem tem e quem não tem. Na resposta que deu ao Nassif, o diretor do Vox Populi informou inclusive que também os seus resultados tornam quase idênticos aos do Datafolha caso ele não considere os entrevistados sem telefone (que seriam quase 30% de sua amostra). Ficou de apresentar formalmente esses dados e gráficos. Se tudo isso se confirmar, estaria explicada boa parte da diferença encontrada entre os insitutos.


Por fim, antes que blogueiros e analistas tirem a conclusão rápida de que um instituto ou o outro adota essas práticas para favorecer seus candidatos preferidos, preciso ressaltar: até onde se sabe, basicamente todos esses procedimentos são seguidos por Datafolha e por Vox Populi desde sempre. Não foram sacados da cartola agora. É preciso investigar isso bem, porque se é assim, pode ser que uma ou outra metodologia seja melhor ou pior, mas a idéia de manipulação puramente conjuntural fica difícil. Digo: SE esses métodos forem os mesmos desde o início, como é o que se sabe, como dizer que são usados para manipular 2010? Ou Datafolha tenta eleger Serra ou tucanos antes mesmo do PSDB nascer? Ou Vox Populi escolheu entrevistar no setor rural para favorecer petistas (onde predomina o Bolsa Família) enquanto o PT até 2006 era forte nas cidades e ia muito mal no campo? Não faz sentido. Criticar é ótimo, desconfiar é necessário. Conspirações existem. Mas analista com paixão demais, faz mal. ;)

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Comentários recebidos

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  2. Guilherme Leal |

    Muito bom, Fabricio! Post um pouco mais tecnico mas mesmo assim bom de se ler, compreensivel e ajuda entender um pouco do que se fala noutros lugares. O que me intrigou mais foi pensar que o Datafolha não pega ninguém no campo. Para mim a grande diferença pdoe estar aí, pois uma parcela razoável dos brasileiros ainda vivem no mundo rural, não? Sabe algo sobre isso?

  3. tota luis |

    mais uma vez, encontrei aqui a discussao correta sobre as pesquisas, ajudando a entender a qusetao.

    como sempre, mt bom. abs

    Luis

  4. m.silva |

    Comentando pela primeira vez, mas nao podia deixar de reforçar que este é o blog em que entendo algo dessa confusao tecnica. E aproveito pra dizer tambem que estou de acordo com Guilherme, que Datafolha tem o problema mais grave ao nao entrevistar povo rural. Parabéns pelo texto.

  5. Fabricio Vasselai |

    Caro Guilherme, é muito bom tê-lo de volta por aqui!

    E fico especialmente feliz se você acha que consegui ser inteligível apesar da chatice técnica maior que o assunto envolve. A idéia era essa mesma: dar um pouco mais de base para a discussão sobre os intitutos de pesquisa, para além das suspeitas e manipulação (afinal, essa eu não posso provar: não sou repórter investigativo, hahaha)!

    E estou de acordo contigo: uma das coisas mais intrigantes é avaliar até que ponto o Datafolha sofre alteração por ser o único cuja metodologia deixa o setor rural de fora. MAs não sei se daria conta de explicar tanta diferença entre os institutos: o número que o diretor do Vox Populi mencionou esses dias está correto: 16% dos brasileiros vivem no mundo rural. É muita gente. O bastante para alterar os resultados de uma pesquisa para outra. Mas acho que não o bastante para tanta diferença como a atual entre Datafolha e Vox. Mas vamos lá, continuamos aprendendo os métodos e acompanhando a discussão, para avaliar os institutos e suas pesquisas!

    Aqui, voltarei a isso muitas vezes e, claro, quero te ver por aqui! Grande abraço.

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    Caro Luis Tota, você também fazia algum tempo que não vinha, mas aqui está! Ótimo tê-lo de volta e vou dizer: estou feliz que achou o post útil, especilamente porque meu grande intuito é esse mesmo. Trazer de vez em quando um ou outro conhecimento chato, de forma mais acessível! :)

    Volte sempre Luis e obrigado!

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    Hey m.silva, seja muito bem vindo, então! Melhor que comentador novo é ver quem já lê começar a comentar!

    Brigado pela generosidade e fico feliz que tenha dado uma dentro com esse post, ajudando a tornar claro o que por defibnição é bastante obscuro!
    :)

    Agora que começou, volte sempre que vocês me fazem feliz deixando seus comentários por aqui. Grande abraço.

  6. Souto e Geddel: força contra e torcida a favor « Geddel – Governador |

    [...] A cada diz que passa, cresce a tensão no clima da campanha eleitoral baiana, tensão que é alimentada periodicamente  pelas pesquisas de opinião e estimulada pelas divergências entre os números dos institutos. Mas não quero ficar falando eternamente sobre essas divergências, que alguns atribuem a diferenças na metodologia (caso queira ver uma análise interessante a respeito disto, sugiro ver o blog Politicando, clicando aqui). [...]

  7. valfredo franciscisco |

    Se começarem pesquisar no com, coitado do Serra, vai levar uma lavagaem que não será fácil para comentar.

  8. bento ferreira sousa |

    Caro amigo venho atrave deste comunicado informar que se estes istitutos de pesquisa não se ajustarem, não vai demorar muito tempo para que eles percam toda a credibilidade perante a opinião publica.
    deste pais. Portanto o que eles precisa mesmo é de pararem de menti
    e falar a verdade para a população brasileira que diga-se de passagem estão a cada dia mas pulitisada.E mas bem informadas com o
    que está acontesendo no Brasil e na Bahia? se foce no governo do dem o Paulo Souto estaria 67 e Wagne com 17 estes é os numeros que
    os istituto de pesquisa estariam divilgado na politica baiana. Não tenho duvida do que estou falando é so lembrar dos tempo do carlismo que relembramos tudo que acotecia com apolitica do estado da Bahia.Sem mas nada a crecentar os meus agradecimento epara-bens pelo comentário sobre os istitutos de pesquisa.

  9. Politicando » » Rapidinhas: Vox Populi faz pesquisa para PSDB também; mais gente entrevistada não torna pesquisa mais confiável |

    [...] dentro das diferenças metodológicas entre esses institutos, que andei explicando esses dias, certamente não se inclui como relevante o ponto toscamente levantado pelo Reinaldo Azevedo [...]

  10. Fabricio Vasselai |

    Olá Valfredo, seja muito bem-vindo ao meu blog! Receber novos comentaristas é sempre uma grande alegria.

    Se entendi bem o que vc quis dizer é que se passarem a entrevistas o interior Serra tomaria uma lavada? Não sei dizer se tomaria uma lavada e nem mesmo se isso bastaria para chegar à diferença detectada pelo Vox Populi (8 pontos a mais para Dilma). Mas que certamente alteraria o resultado do Datafolha no sentido de mais pontos para Dilma e menos para o Serra, é muitíssimo provável.

    No mais, pesquisas erram. Todas elas. E como nunca antes da história deste país tivemos tamanha polarização acerca dos institutos, vai ser muito divertido ver quem acertará mais os resultados, não é mesmo? Pode ter certeza: assim que a urna for aberta, vou analisar isso. ;)

    Grande abraço e continue por aqui!

    ____________________

    Hey Bento Ferreira, você também seja muito bem vindo ao blog! :) Sempre grande alegria ter leitor novo por aqui.

    Estou de acordo contigo: se os institutos não começarem a mudar algumas coisas, perderão muita credibilidadel. Especialmente, se não passarem a ser mais transparentes ao longo dos ano quanto as suas metodologias e aos seus procedimentos comerciais no que se refere às pesquisas eleitorais.

    Concordo ainda mais contigo quando diz que a população brasileira é cada vez mais politizada e bem informada. E prova disso é esse debate que está acontecendo sobre os institutos em 2010. Aliás, esse debate acirrado colocou novos atores, o Vox Populi e o Sensus, definitivamente no cenário principal. Isso é mostra dos tempos: maior diversidade, maior número de opções, mais riqueza de debate político.

    Por isso, é tão importante pensarmos e discutirmos tudo isso, não é mesmo? E aqui no blog, faremos isso o tempo todo. Portanto, parabéns a você pelo interesse no assunto! Obrigado por ter vindo e volte sempre. :) Grande abraço!

  11. Chips |

    Fabrício:

    Perfeito este post sobre as diferenças metodológicas. Se eu ainda fosse professora de Metodologia, com certeza usaria esse seu texto com meus alunos.

  12. Fabricio Vasselai |

    Hey Chips, que bom ter vc de volta ao blog!! :)

    Poxa, se você ainda fosse professora de metodologia, eu adoraria ir lá discutir o texto e a questão com seus alunos. Aliás, será que nenhum leitor quer fazer convite desses pra eu ir brincar? Hehehehe

    Eba, continue por aqui, vai!



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