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FABRICIO VASSELAI

É graduado e mestre em Ciência Política pela USP.
Currículo acadêmico e produções acadêmicas, aqui.

Ciro voltando atrás: a inocência quixotesca de analistas não é nada inocente

29 de Julho de 2010, às 17:48:02 Postado há 1 mês e 1 semana atrás

                

Depois de breve tempo de reclusão, Ciro Gomes voltou aos noticiários por se encontrar com Dilma Rousseff e, depois de voltar atrás na sua neutralidade na campanha, declarou apoio à campanha do PT. Dizem que Ciro será convidado a participar formalmente da campanha, a pedir votos para Dilma e até a aparecer no programa de TV e rádio da candidata. Em geral, o tom dessas notícias e, especialmente dos comentários como os de Josias de Souza em seu blog no Uol, são de que Ciro não mantém a palavra, pois quando foi preterido por seu próprio partido, o PSB, em prol do apoio a Dilma, ele havia dito que estaria fora da campanha. Ciro seria um homem do “vai e vém”, que dança conforme a música, joga de acordo com as circunstâncias, volátil.


Em que pese as opiniões que cada um de vocês, leitores, tenham a respeito de Ciro Gomes, creio que é preciso cuidado com esse tipo de análise. Não porque esses adjetivos e caracterizações de Ciro sejam falsos. Pelo contrário, é tudo verdade. Mas pelo simples fato de que são a definição de fazer política profissional quando se tem peso eleitoral concreto (eu disse quando se tem densidade eleitoral, então exemplos de políticos com 0% dos votos não desmentem a lógica). O que quero dizer é: políticos são por definição voláteis, moldáveis, dançam conforme a música. Mudam de opinião rapidamente de acordo com as conveniências para suas carreiras. Definir Ciro como sendo assim, como se fosse característica dele e não do sistema político, é ser parcial. É o tipo de meia verdade enganadora, utilizada para direcionar a opinião pública.



Os analistas que agora criticam Ciro, não acharam incoerência dele afirmar, quando saiu de cena, que Serra seria mais preparado para enfrentar uma crise do que Dilma. Mesmo sabendo que ele é crítico e desafeto de Serra desde o começo dos tempos. Mas ele voltar atrás em relação a sua participação na propaganda de Dilma, ah, isso é grande incoerência? Suspeito que Josias de Souza não acharia nada estranho se Ciro, surpreendentemente, pedisse votos para Serra… Mas calma, onde quero chegar com isso é não é tanto no fato de que nada há de anormal em Ciro Gomes seguir sua posição pró-Lula de todos esses anos de governo e, ainda, seguir a orientação de seu partido, o PSB, de engajamento na campanha de Dilma. Quero chamar a atenção, na verdade, para a visão altamente romantizada e um tanto quixotesca que temos sobre a política. Como se Ciro, porque deu uma declaração dizendo-se longe da disputa, devesse agora manter-se longe a qualquer custo para “honrar sua palavra”. Para reeditar, ele sozinho como Quixote, a era da confiança nos acordos do fio do bigode.


Ora, por favor. A cobrança por isso é forte quando interessa aos simpatizantes de Serra e frouxa quando se trata dos simpatizantes de Dilma. Ou seja, a flexibilidade de Ciro é a mesma que leva os torcedores de um ou outro candidato a ter pesos e medidas tão diferentes de acordo com suas próprias conveniências. Ciro voltar atrás pela milésima vez é apenas tão volátil quanto Lula negar que seria candidato à reeleição em 2006 ou Serra assinar documento em cartório assegurando que não largaria a prefeitura paulistana para ser candidato ao estado em 2006 e reafirmar que não sairia do estado mais cedo para tentar ser presidente em 2010 (coisas que acabou fazendo). Ou quanto Marina dizer que saía do PT para buscar melhores companhias, diferentes de Sarney, e ir parar no colo do fisiológico PV, de gente como o filho de Sarney. Ou quanto Roberto Freire (PPS) criticar os que trocam de partido ou estado por motivação política rasa (dando, aliás, agulhada em Ciro), mas aceitar um cargo no governo de São Paulo. Ou quanto Collor ser o crítico de Lula ontem e querer usá-lo em seu jingle de campanha hoje. Ou quanto tucanos criticarem alianças do PT com mensaleiros e gente como Roberto Jefferson (PTB), mas terem em Jefferson um de seus principais aliados em 2010. Ou quanto duzentos exemplos de fazer política do PT e do PSDB quando governantes federais e de todos os outros médios ou grandes partidos quando governantes estaduais ou municipais.


Tudo normal no mundo na política. Sem essa taxar um ou outro político, individual e esporadicamente, de acordo com conveniências. Cuidado leitor: Dilma, Serra, Ciro, Marina, não têm nada de tão diferente quanto políticos profissionais que são. Isso é lorota. O que os difere são políticas de governo diferentes que defendem ou implantaram. Portanto se os analistas querem cobrar coerência dos candidatos e dos governantes, que o façam onde importa: nas políticas, programas e propostas que apresentam ou executam. Estão seus resultados de acordo com seu discurso e com o que prometeram? Ou como dizia o próprio Ciro Gomes em 2002, a que senhor querem cada um dos candidatos servir? O resto, é papo furado para fazer jogadinha de imprensa pró-Serra ou pró-Dilma.

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Comentários recebidos

  1. Camilla |

    Ho ho ho, caro amigo!
    Ótima postagem!
    Bom saber que não sou mais dependende de casamentos de horários para ter notícias de suas opiniões! rs

    Sucintamente, definiu o que conversávamos em nosso último encontro: os discursos morais vestem a uns e a outros, contra os adversários, de acordo com as conveniencias! Os exemplos são pontuais! Gostei.

    Saudações da margem de cá das humanidades! ;)

  2. Juliana Cunha |

    Ao ler seu blog voltei a me interessar mais por política.
    Quando tinha meus 16 anos tinha a ideia de uma política romantizada, ética e blá blá blá. Depois me frustrei de tal modo que nem debatia mais o assunto.
    Agora tenho enxergado a política de outra forma.Continuo me decepcionando,mas não mais com os olhos ingênuos de outrora.
    Porém como operadora do Direito fico com a grande dificuldade de separar os atos políticos normais de se fazer política e o atos imorais,ímbropos.É como se só importasse o resultado dos atos…

  3. Fabricio Vasselai |

    Hey Camilla, seja muuuito bem vinda ao blog!

    Que bom que chegou aqui já gostando! :) Vc captou mt bem a idéia, como sempre: até te digo que me lembrei da nossa conversa enquanto escrevia. Pretendo abordar isso muitas vezes ainda e, espero ter você por aqui pra ajudar. Não há dúvida: este canal vai ajudar a gente a depender menos de encontros esporádicos com 24 horas de conversa, hahaha. Ainda que, espero, não gastemos todo o verbo a ponto de não sobrar para elas!

    Ter o lado daí das humanidades agora aqui no blog só aumenta a responsabilidade, já que terei você também para ficar de olho se eu falar bobagem. Que bom!

    Gostei que tenha aparecido por aqui e volte sempre - tipo todo dia, tá? ;)

    _______________________

    Hey Juliana!!!

    Por ser das mais antigas e assíduas leitoras deste blog (e uma das principais interlocutoras), já tinha percebido que você é daquelas pessoas estranhas que cultivam o raro hábito de elogiar os outros! hehe, mas dessa vez, se superou. Fiquei até emocionado em saber que atingi algo além das minhas ambições: contribui um pouquinho pra vc voltar a se interessar mais por política! De verdade, nem esperava fazer tanto aqui e, se fiz, já valeu o blog.

    Especialmente, porque entendo bem o que você viveu. Também tive um momento semelhante, creio que aos 15 anos. :) E te digo: é muito difícil trocar o mundo do “como eu quero” pelo do “como é”, né? Eu me esforço todo dia. =/ Mas se me permite a franqueza agora sim bem pessoal, esse é o ato de generosidade mais extrema. Afinal, trata-se de abandonarmos o nosso mundo ideal em troca de outro que seja apenas o melhor que der - o que já é muita coisa. Desejar para o mundo ou para o país apenas e tão somente aquilo que idealizamos incorre no risco de não valorizar ou não lutar por nada que fique abaixo disso. Mas muita coisa que fica abaixo do que sonhamos é importante o bastante para merecer nossa atenção e nosso suor.

    Eu acho que na política os resultados têm esse poder todo acima dos princípios porque, como dizia já o Maquiavel séculos atrás, o governante só é lembrado pelo que ele produziu, pelos resultados. Quem é julgado pela moral são os cidadãos. Se você, Juliana, for gente fina a vida toda, seus amigos vão sempre falar isso de você. Mas ninguém vai lembrar de elogiar o Beluzzo, presidente do Palmeiras, porque ele é um homem de bem. Se não ganhar nada e o time continuar como está, passará à história do time como a gestão que o derrubou de vez.

    E a política é assim. Resultados e preferências se sobreporão a princípios: por isso se tolera Serra rasgar compromisso assinado e largar SP como se comprometeu a não fazer. É por isso que se toleram alianças de Lula. E aí vai. É claro que quando passar por cima de princípios se torna passar por cima da lei, a coisa é mais complicada e, a rigor, tem-se que punir, oras. O diabo é que mesmo aí volta a política: Lula deveria ser legalmente implicado no caso do mensalão? Dilma deveria ser impugnada por propaganda antecipada? E Serra que também faz isso? Deveria ser menos punido pq não tem o governo por trás? Ou igual e as duas candidaturas seriam impugnadas?

    :S Bah! Por isso que política é divertido! E se você passou a gostar mais dessa brincadeira, depois do seu comentário eu passo a gostar um pouco mais desta de ter um blog.
    Obrigado mesmo!

  4. Camilla |

    É por essas e outras que acho que fundamentos de política deveriam ser ensinados na escola! Maaas, administração da coisa pública é para poucos, né?
    Humpf!

  5. Fabricio Vasselai |

    Hey Camilla!

    Não tenho dúvida: gostaria de ver fundamentos de política ensinados na escola. :) Mas o problema é quem iria ensinar…

    Ou seja, posso destilar um pouquinho de pessimismo e rancor? huahuahua: antes disso acontecer, precisamos ensinar meus colegas que estudam política a fazer mais do que meramente usar a faculdade para ter um diploma que referende suas opiniões pré-existentes. Se alguém faz faculdade em humanidades e não sai pensando coisas diferentes do que entrou, eu desconfio. ;)

    E mais: embora ensinar esses fundamentos em escola fosse mais importante, eu já ficaria bastante satisfeito se ensinássemos ao menos nas faculdades de jornalismo, huahuauhau. Que acha? Já seria bem legal né! :D E aliás é um sonho de vida: dar aula de política em faculdade de jornalismo.

    É bom ter você por aqui! Volte todo dia, é uma ordem!

  6. Camilla |

    Putz!
    O pior e que eu tenho certeza que esses caras sabem o que estão falando. Quer dizer, acredito que a maioria dos josrnalistas tem ciência das críticas que seus cometários são dignos porque tem cononhecimento de política. Não digo os zé ruelas que estão começando, ou que fazem folhetim, mas os caras de peso, como própria L. Hipólito, o Alexandre Garcia, o Jabor - que não é joralista, mas tem gente que acha que ele deve ser escutado como um crítico lúcido -, enfim, e mais uma galera.
    Depois que o tio Boner disse que o Jornal Nacional dele era para o Homer Simpson, estou convencida de que eles sabem o que fazem! (simle irritado!)

    ps. prefiro não comentar sobre a licenciatura nas humanas [isenção consciênte];)



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