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‘Roberto Da Matta’

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Sofremos com o futebol porque ele é muito mais que um jogo

9 de Julho de 2010, às 17:52:36 Postado há 4 anos e 4 meses atrás



Meus caros leitores, nessa confusão e escasso acesso à internet por conta da minha volta ao Brasil (cheguei na segunda), não só foi difícil escrever posts (pois ainda não fui para casa e nem parei em um lugar só) como, absurdo total, não tive a oportunidade de sequer comentar o significado da eliminação do Brasil na Copa do Mundo. Mas para falar sobre a importância simbólica e cultural do futebol para o Brasil, que é o que está por trás do nosso sofrimento nesse prematuro fim de Copa do Mundo, vou deixar para quem entende. Aproveitei que estou em São Paulo e fui outra vez ao Museu do Futebol, dessa vez apenas para buscar para vocês um texto magnífico de um antropólogo magnífico, o Roberto DaMatta. Como cientista social de formação, que eu sou, não poderia deixar de trazer esse pequeno comentário do grande antropólogo, que está exposto nas paredes desse belo museu de São Paulo. Aqui vai!


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“O amor ao futebol como disputa apaixonada faz com que se perca de vista o seu papel transformador. Mas o fato é que o futebol tem sido uma ponte efetiva (e afetiva) entre a elite que foi buscá-lo no maior império colonial do planeta, a civilizadíssima Inglaterra, e o povo de um Brasil que, naqueles mil oitocentos e tanto, era constituído de ex-escravos. Juntar brancos e negros, elite senhorial e povo humilde foi sua primeira lição. O futebol demonstrou que o desempenho é superior ao nome da família e a cor da pele. Ele foi o primeiro instrumento de comunicação verdadeiramente universal e moderno entre todos os segmentos da sociedade brasileira. Ele tem ensinado a agregar e desagregar o Brasil por meio de múltiplas escolhas e cidadanias.


A segunda lição veio com seu desenho. Ele exprime valores antigos (a idéia de que há sorte em todos os confrontos), mas é dele também o ideal moderno de treino. Como uma atividade aberta, ele não discrimina tipos físicos e classes sociais.


O sujeito pode ser preto ou amarelo, alto ou baixo, culto ou ignorante, mas o que interessa é que saiba jogar. Mais: seu foco não são as nobres mãos que levam para o céu (como acontece no vôlei ou no basquete), mas os humildes pés que nos atrelam ao chão e a terra. No futebol, o pé que carrega o nosso corpo transforma-se num mágico instrumento capaz de enganar o adversário e de controlar e passar a bola. Como a capoeira, o jogo do ‘pé na bola’ trouxe a multidões de brasileiros a possibilidade de, ao menos simbolicamente, inverter o jogo. No Brasil, ele abriu a possibilidade de trocar as mãos pelos pés.


O pé, associado à pata e à brutalidade das bestas de carga, muda de posição no futebol. Nele usa-se o pé, sim, mas com método. Seguindo um regulamento que torna as chuteiras de todos os tamanhos e feitios, iguais. E aí está sua lição mais importante: o futebol civiliza o pé. Ele mostra que a parte mais atrasada e bárbara do corpo pode ser submetida não só às sutilezas do jogo, mas à civilidade do saber ganhar e perder sem ódio, de modo transparente e por esforço próprio. Sem a ‘mãozinha’ dos amigos ou parentes. Foi num campo de futebol, não num parlamento, que o povo brasileiro teve a prova de como é maravilhoso juntar treino com talento; ordem com imprevisibilidade; jogadas espetaculares com uma estrutura fixa; e, finalmente, o vitorioso com o derrotado. No futebol, como na democracia igualitária, o ganhador não pode existir sem o perdedor, que terá o triunfo amanhã, mas que hoje, na derrota, valoriza e legitima a nossa vitória.”


(Roberto DaMatta)


Obs: versão do post em áudio, para testar essa funcionalidade, está disponível no botão acima do título do blog.

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